16/09/2012

Sunshine




Vendo-a agora, dançando como se nada mais importasse, balançando seus longos cachos loiros, seu vestido esvoaçando, seus pés descalços, os olhos fechados, mas as lágrimas correndo em seu rosto e, apesar disso, com um sorriso inocente e sincero como de uma criança, lembrei da primeira vez que a vi.
Tinha 16 anos, era uma noite chuvosa e eu voltava da casa de um amigo. A estrada estava vazia, então não me preocupei quando fui dobrar em uma curva. Quase me acidentei tentando desviar de uma menina que andava pelo meio da estrada. Ela usava um vestido longo preto meio hippie, os cabelos pingando água. Buzinei pra que ela saísse da frente, mas ela não mexeu um milímetro, como se não me ouvisse. Parei o carro com a intenção de perguntar se ela era uma louca suicida, mas quando percebi que ela chorava desconsoladamente esqueci que estava bravo. Saí do carro, coloquei meu casaco em seus ombros e tentei fazê-la entrar no carro. Ela não se moveu então a peguei no colo e coloquei no banco ao meu lado. Quando nossos corpos se tocaram tive uma estranha sensação de que uma corrente elétrica me atravessou. Enquanto seguia na estrada perguntei o que havia acontecido, mas ela não respondeu. Perguntei seu nome e pela primeira vez ela me olhou e respondeu:
_Aimê.
Nunca vou esquecer seu sorriso triste ao dizer seu nome, como se aquilo lhe trouxesse lembranças que ela não queria mais ter.
Queria levá-la ao hospital, mas ela me garantiu que estava tudo bem, que não havia se machucado. Então quis saber onde era sua casa e lágrimas verteram novamente de seus olhos enquanto explicava onde morava. Deixei ela enfrente a uma casa antiga, mal cuidada pelo tempo, mas muito bonita e com um jardim perfeito. Aimê tentou devolver meu casaco, mas eu disse pra ela ficar com ele que eu voltaria no outro dia para saber como ela estava e pegaria o casaco. Ela assentiu e entrou na casa.
Durante todo meu caminho de volta não conseguia tirar Aimê da cabeça. Apesar de estar encharcada pela chuva estava linda. Tinha cabelos dourados caindo sobre os ombros e uma flor prendendo-o preta como o vestido. Seus olhos eram de um castanho surpreendente e sua pele era muito clara. Passei a noite acordado pensando em como ela estaria.
No outro dia, após a escola, voltei a casa dela para saber se estava tudo bem. Ela me recebeu na porta com um “você veio mesmo” e abriu um sorriso extremante doce que fez meu coração disparar. Sua casa era deslumbrante, apesar de não estar muito organizada parecia decorada com muito carinho e parecia muito iluminada. Era Cheia de fotos de uma família muito feliz, era toda colorida com quadros de bandas antigas, sinos de vento na janela e símbolos da paz por todo lado.
Aimê me agradeceu por ter levado ela até sua casa na outra noite e entregou-me o casaco. Quando perguntei o que havia acontecido, sua expressão se tornou fria, baixou os olhos, mas, ao contrário da outra noite, me contou tudo.
_Estava voltando do enterro dos meus pais. Eles foram assassinados por policiais enquanto protestavam no centro da cidade. Vários de seus amigos foram mortos também e ontem teve homenagem a todos eles. Agora eu moro aqui, sozinha, pois sou emancipada.
Fiquei sem ação quando ela começou a chorar desesperadamente, então apenas a abracei até que ela se acalmasse.
Nos tornamos melhores amigos, andávamos juntos o tempo todo, fazíamos tudo juntos. Ela me contou tudo sobre sua família. Seus pais se conheceram entre os anos 60 e 70, eram hippies e viviam em um acampamento. Se apaixonaram, casaram-se e após alguns anos tiveram ela. Colocaram seu nome de Aimê por que significa “amada”. Ela cresceu em meio aos ideais hippies e tornou-se uma também. Era uma família muito feliz, harmoniosa, seus pais eram seus ídolos. Até que naquele dia, um grupo de amigos foi protestar pela paz e acabaram mortos por policiais. O mundo de Aimê caiu, ela estava sozinha e, segundo ela, me conhecer foi um presente do universo, pois eu emanava uma “energia muito positiva” e ela se sentia bem ao meu lado.
Acabei me apaixonando por ela e a cuidava como se fosse minha vida. Passamos os últimos anos juntos e quando terminamos a escola decidimos nos casar.
Agora eu a vejo dançar na festa de nosso casamento- que foi em uma cerimônia hippie muito divertida- e consigo perceber sua felicidade ouvindo sua música favorita da Janis Joplin sacudindo a barra do seu vestido branco de rendas, com os pés na grama, as mãos em seus cabelos cheios de florzinha e sei que está absorvendo a “força da natureza” e sentindo a energia do momento. Seu sorriso inocente é por estar feliz e suas lágrimas são por estar lembrando de seus pais e de quando era pequena dançando junto com eles nesse mesmo gramado.
Percebo agora porque a amo mais do que tudo no mundo. Ela apareceu do nada, uma menina misteriosa, tão diferente em seu estilo de vida e mudou todo o curso da minha. Me completou, me fez entender o que é o amor em todos os seus sentidos, me trouxe a real felicidade. Ela é a razão de tudo, é como uma droga pra mim, meu raio de sol, um “presente do universo” feito a minha medida.


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